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1 Reis 17.8-16

Mensagem por crscapixaba-admin em Sex Nov 09, 2012 4:02 pm




1 Reis 17.8-16 - Osmar L. Witt


Prezada comunidade de Jesus Cristo!

um ditado popular que afirma que a miséria repartida se torna mais
fácil de ser suportada. O texto sobre Elias e a viúva de Sarepta
confirma, em parte, este ditado, mas vai além dele. As palavras
proféticas anunciadas no passado em Israel apontaram, seguidamente, para
o abandono da fé no Deus libertador, o qual inspirou a libertação da
escravidão no Egito. O Deus que ouviu o clamor e o lamento das pessoas
empobrecidas e oprimidas rapidamente foi substituído pelos deuses de
outros povos, os quais davam sustentação à desigualdade social e à
opressão das classes aristocráticas sobre a população empobrecida.

A
atuação do profeta Elias se enquadra nessa situação. Ele se colocou em
rota de conflito com os profetas de Baal, deus da fertilidade e das
chuvas, os quais exerciam influência sobre a casa do rei Acabe. O
projeto de governo sustentado por Acabe foi criticado por Elias que
disse: "Em nome do Senhor, o Deus vivo de Israel, de quem sou servo,
digo ao senhor que não vai cair orvalho nem chuva durante os próximos
anos, até que eu diga para cair orvalho e chuva denovo."
A tensão entre o rei e o profeta obrigou ao afastamento da casa real e o profeta foi para a cidade de Serepta, perto de Sidom.

Elias recebeu a promessa de que teria a ajuda de uma viúva: "Eu mandei que uma viúva que mora ali dê comida para você."
A condição social das viúvas naquela sociedade patriarcal era, por si
só, de desamparo. O amparo do profeta deveria vir de um lugar pouco
provável: da acolhida de parte de uma viúva. A narrativa bíblica não
informa se o profeta Elias desconfiou ou não desta promessa, diz apenas
que ele foi e que encontrou a viúva. O diálogo entre eles começou com um
pedido por água. Depois da viagem o profeta tem sede. Quando a mulher
se retira para atender o pedido de Elias, ele acrescenta um novo pedido
ao primeiro: ele não quer apenas água, quer também algo para comer: pão
para saciar a fome. Então, escancara-se a situação na qual vive a
mulher: a farinha está no fim e, como se não fosse dificuldade o
suficiente, ela tem um filho que depende dela para ser alimentado. A
partir deste ponto da estória, a insistência do profeta parece assumir
um tom de insensibilidade. Ora, então ele não vê que os recursos da
mulher com o filho são tão precários que mal podem garantir o sustento
deles?

Neste ponto, o profeta recorre a uma antiga tradição popular entre os israelitas: "o
Senhor, o Deus de Israel, diz isto: ‘não acabará a farinha da sua
tigela, nem faltará azeite no seu jarro até o dia em que eu, o Senhor,
fizer cair chuva.'"
Esta canção relembra a fidelidade de Deus
quando o povo de Israel entrou na terra prometida, após a fuga da
escravidão no Egito. A experiência que nela se expressa é a de que Deus
não desampara quem nele confia. E o amparo divino se concretiza em
formas de solidariedade na dor, na pobreza, na seca, quando os recursos
materiais se acabam.

Muita
gente, eu também, já presenciou a cena em que uma vizinha recorre a
outra para emprestar um pouco de açúcar, café ou arroz, quando o
mantimento chegou ao fim e o mês ou a semana ainda não acabou. Quando se
receber o salário e se fizer novas compras, então se devolve o
emprestado. E, da mesma forma, quem recebe ajuda também se dispõe a
ajudar o vizinho naquilo que lhe falta. Enquanto tivermos um amigo ou
uma vizinha a quem pudermos recorrer no momento do desamparo, sabemos
que não está tudo perdido. O profeta Elias não deixa que se perca esta
memória do auxílio que vem em hora, de lugar e de pessoas de quem não se
espera que possa vir alguma ajuda.

Como
dissemos no início, porém, este texto vai além: ele recorda que Deus
envia seus mensageiros e mensageiras para lugares e tempos improváveis.
Há um desafio missionário implícito nesta narrativa: "vão para Sarepta",
isto é, vão para onde o amparo de vocês depende de pessoas que também
estão desamparadas. A Igreja de Jesus, conforme ouvimos na leitura do
Evangelho deste domingo, é convidada a seguir o sinal do reino de Deus
que se manifesta no exemplo da mulher que transforma em oferta não as
sobras, mas o pouco que tem. Na partilha do pouco de que cada pessoa
dispõe ganha vida um novo modo de encarar os bens materiais. Não mais no
acúmulo, mas na satisfação das necessidades de cada pessoa exercitamos
pequenos sinais do reino de Deus entre nós. Na comunidade de Jesus
ninguém é tão autossuficiente que não precise de nenhuma ajuda, e
ninguém é tão desamparado que não tenha algo com que possa prestar
ajuda. Claro que não se cogita apenas de bens materiais, por mais
fundamentais que eles sejam. Mas, a vida é mais do que comida e bebida e
uma palavra bem dita na hora apropriada pode ser de muito valor.
Elias
foi enviado para anunciar a seca como o castigo pela desobediência dos
governantes de Israel. Eles haviam se esquecido de Javé, o Deus que luta
com seu povo contra as muitas formas de opressão. E foram atrás de
Baal, que legitima as desigualdades sociais e a opressão que delas
resulta. Também nós somos confrontados com a triste situação de que a
religião e a fé são usadas para encobrir e para legitimar muitas formas
de injustiças com as quais aprendemos a conviver como se fossem normais.
A gente cria calos na alma de tanto sofrimento que assistimos em toda
parte. E acabamos nos conformando, afinal, sempre foi assim e não está
em nosso poder mudar as coisas. Nós precisamos reaprender a olhar para a
"viúva de Sarepta". Na despensa dela só há um "resto de farinha" e um
"resto de azeite". Mas, quando o pouco é partilhado acontecem coisas
inesperadas! Onde nossas forças terminam, Deus guarda belas surpresas!

De
Jesus também não se esperou muita coisa. Afinal, do Messias que haveria
de vir para restaurar a glória do povo de Israel tinha-se bem outra
imagem do que a de um mestre que reuniu um pequeno grupo de seguidores e
de seguidoras, e que dizia de si não ter nem onde descansar a cabeça.
Sob o ponto de vista do prestígio e da influência social, da riqueza
material e do poder político, Jesus também não tinha mais do que um
"resto de farinha e um resto de azeite". Mas, o Reino de Deus entre nós
começa assim mesmo, frágil como um grão de mostarda. É uma semente
pequena, à qual pouco se dá valor. Mas, ela cresce e frutifica. Jesus
está bem dentro desta tradição profética, que não nos deixa esquecer que
na singeleza dos pequenos gestos e na solidariedade e no cuidado de uns
pelos outros em meio a tanto desamparo, está guardada a memória da
presença de Deus entre nós: "Como o Senhor havia prometido por meio de Elias, não faltou farinha na tigela nem azeite no jarro."

E a paz de Deus, que é maior do que o nosso entendimento, guardará vossas mentes e corações em Cristo Jesus.
Amém.


P. Osmar L. Witt
São Leopoldo, RS, Brasil
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