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Salmo 22.1-19 - Sexta feira Santa - prédica - homilia

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Salmo 22.1-19 - Sexta feira Santa - prédica - homilia

Mensagem por crscapixaba-admin em Ter Abr 19, 2011 5:20 pm







Salmo 22:1-19,
Hans Alfred Trein / Roberto E. Zwetsch
Sexta-feira da Paixão, 22.04.2011



A paz de Deus que excede todo entendimento esteja com vocês nesta Sexta-Feira Santa. Por meio desta Paz teremos força e sabedoria para compreender, uma vez mais, o sentido da Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo, o absurdo da morte do inocente e justo. Então, recebam esta paz e a desejem uns aos outros, em solidariedade e reciprocidade.

[...]

Comunidade reunida sob a cruz de Cristo, amigas e amigos:

Muita gente sofre neste mundo. Não penso só nas guerras, por si só terríveis - como a da Líbia ou do Afeganistão nesses dias - mas também nos trabalhadores japoneses da Usina de Fukushima que devem conter o vazamento de material radioativo que já lhes comprometeu a vida futura. Penso no sofrimento de mulheres e crianças por causa da violência doméstica. Penso nos membros de nossas comunidades de fé que perderam tudo nas enchentes do início do ano na região serrana do Rio de Janeiro, e agora no sul do Rio Grande do Sul, no Mato Grosso do Sul e no Paraná. E lembro especialmente do sofrimento dos povos indígenas no Brasil e toda a América Latina, nesta Semana dos Povos Indígenas que coincidiu com a Semana da Paixão e Páscoa em 2011. Sim, muita gente sofre neste mundo, longe e perto. Quem lhes escuta o choro, o lamento, o grito?

O Salmo 22 é um dos exemplos maiores da lamentação de um justo na Bíblia. Não por acaso, este Salmo ressoa do fundo dos séculos na boca de Jesus quando de seu sofrimento na cruz. O salmista clama e não escuta nenhuma resposta. Jesus grita o seu desespero na cruz: Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste? E também não ouve logo uma resposta. Acredito que qualquer de nós, em algum momento de sua vida sentiu algo parecido com o que Jesus sofreu na solidão da cruz, na dor da tortura e diante do escárnio dos espectadores que admiravam aquele homem fraco e destituído de qualquer formosura pendurado no madeiro da vergonha. Jesus grita e Deus parece totalmente ausente. O silêncio de Deus é algo terrível. É como se nos tirassem o solo debaixo dos pés. É como um terremoto!

Mas o Salmo nos convida a ir mais fundo. Há uma tensão quase insolúvel neste clamor angustiado diante do silêncio de Deus. Por um lado, o sofrimento e a consciência clara de que somos vermes e gente desprezada. Somos como um caco de barro e um monte de ossos desconjuntados, nossa língua gruda no céu da boca e estamos a ponto de virar pó (v. 6-8; 14-15). Por outro lado, transparece uma confiança sem medida no Deus que aparentemente não escuta nem responde aos gritos do sofredor (v. 3, 9-11). Desamparo e irrestrita confiança. Difícil de entender! Mais lógico seria entrar numa depressão profunda, num luto antecipado e permanente. Sexta-feira Santa é dia só de tristeza. E a gente tem de dar vazão à tristeza, para reencontrar a alegria.

Algo importante, entretanto, ocorre nessa situação de desamparo e confiança, à primeira vista absurdamente contraditória. O salmista lembra, busca na memória de sua experiência de vida motivos para não se entregar, para não sucumbir. "A ti me entreguei desde o meu nascimento, desde o ventre de minha mãe tu és meu Deus" (v. 10). É a consciência desta presença escondida de Deus na vida que permite ao salmista dizer na hora de sua desgraça, na hora em que prevalece o silêncio de Deus: "Contudo, tu és santo [...] Nossos pais confiaram em ti; confiaram e os livraste. A ti clamaram, e se livraram; confiaram em ti e não foram confundidos" (v. 3-5).

O salmo 22 nos convida a viajarmos por nossa história passada e a tomar consciência de pelo menos duas de suas faces.

A primeira delas é para relembrar o sofrimento de nossos antepassados que no século 19 tiveram de deixar a Europa, principalmente a Alemanha, para reiniciarem em condições muito duras a sua vida no Brasil. A maioria era gente empobrecida, famintos, sem recursos e sem futuro, espoliados por juros escorchantes, de modo que choraram muito e trabalharam até a exaustão para construir uma nova possibilidade de vida para si e seus descendentes que somos a maioria de nós. Em pouco tempo, a maioria se deu conta que esta vinda ao Brasil não tinha mais volta. Era aqui, agora, que haveriam de reconstruir sua terra de pertencimento, sua nova casa. A própria constituição das primeiras comunidades evangélicas naquele tempo foi praticamente um milagre de Deus. Aquelas famílias entenderam, possivelmente, o que Jesus queria dizer quando clamou: Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?

Uma outra face dessa mesma história precisamos igualmente recordar aqui. Lembro dos Povos Indígenas, cuja data nacional foi celebrada nessa semana em todo o país. Desde o século 16 os povos da terra foram sendo dizimados, escorraçados de seus territórios, forçados a trabalhar como escravos nas fazendas dos portugueses, e depois empurrados para o interior, liberando a terra para os colonos e mineradores. Quando chegam os imigrantes europeus no século 19, eles já haviam sido exterminados aos milhões. Nas terras - assim ditas devolutas - oferecidas pelo Governo, porém ainda havia remanescentes e resistentes. Aquelas famílias indígenas entenderam, possivelmente, o que Jesus queria dizer quando clamou: Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?

O confronto entre os colonos e os povos da terra foi inevitável. Muito sofrimento ocorreu em ambos os grupos. Cada grupo procurou defender-se. Enquanto alguns grandes enriqueciam, esses dois grupos de pequenos foram jogados num mesmo espaço para brigar entre si. Esta história de conflito de direitos em torno da terra está cravada em nossa história familiar e até mesmo eclesial. Hoje, resta uma ínfima minoria indígena no país, lutando pelo direito de reconstruir suas vidas. Em sua declaração de 180 anos de existência no Brasil, a IECLB veio a público manifestar seu reconhecimento de que participou dessa história de violência colonizadora. Nesse ano de 2011, a IECLB celebra 50 anos de missão entre e junto com indígenas, uma caminhada conjunta, na qual pudemos ser solidários e na qual também aprendemos muito da sabedoria indígena.

Estas duas faces tão diferentes da história nos ajudam a reafirmar uma dimensão do evangelho nesta Sexta Feira da Paixão. Deus - mesmo no seu silêncio por vezes estranho - não assiste impassível ao sofrimento de sua criação. O salmista - numa confiança que parece chegar às raias do absurdo - em meio à sua maior angústia ainda é capaz de afirmar: "Contudo, tu és santo! Nossos pais confiaram em ti, confiaram, e os livraste. A ti clamaram, e se livraram, confiaram em ti e não foram confundidos" (v. 4-5). Aí está! Podemos gritar. Se Deus escutou lá atrás, também escutará hoje o nosso clamor e atentará para a nossa angústia. A sexta-feira santa é um dia oportuno para reconhecermos (já poderia aparecer na oração do Kyrie):

que essa violência histórica nos oprime;

que esses conflitos e essas injustiças não ficaram no passado;

que essa violência sob a superfície da história está nos alcançando; os mortos não descansarão em paz se não resgatarmos e honrarmos a sua memória;

que o peso desse passado não reconciliado está estragando as nossas relações sociais e interculturais;

que está roubando-nos a verdadeira alegria de viver.

Admitindo o sofrimento dos nossos e dos outros, compreenderemos que nós estamos todos incluídos na morte de Cristo. A cruz de Cristo nos ajuda a compreender a história e a transformá-la. A cruz de Cristo nos capacita a reverter sofrimento e injustiças históricas com atitudes de solidariedade e reconciliação.

Em meio aos maiores sentimentos de abandono, nossos antepassados confiaram em Deus. Também os povos indígenas confiaram no Deus da criação, que para eles se revelou de formas bem próprias que nós nem sempre conseguimos compreender. E de dentro dessa confiança radical, algo novo foi nascendo como uma semente que caindo na terra, ao morrer, faz nascer planta nova e cheia de vigor. Cristo entregou sua vida como uma semente. Ele gritou e clamou. E Deus o escutou. É por isto que hoje, na força de Deus, recebemos na morte e pela morte de Cristo o dom da reconciliação que nos salva, nos sustenta, a reconciliação que conserta as nossas relações sociais e interculturais.

Não é fácil viver o silêncio de Deus na Sexta Feira da Paixão. Mas se o fizermos na confiança que aprendemos do Salmo 22 e das palavras de Jesus na cruz do Gólgota, Deus nos haverá de escutar e um novo dia haverá de raiar, ainda que em meio às sombras da noite escura que nos entristece. Por isto, com o salmista podemos clamar com a firmeza e a esperança que nasce da dor: "Tu, porém, Senhor, não te afastes de mim; força minha, apressa-te em socorrer-me".

(antes de dizer essa última oração uma segunda vez, pedir que a comunidade a diga junto). Amém.





P. Hans Alfred Trein / Roberto E. Zwetsch
São Leopoldo, RS, Brasil


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Bemerkung:
Motivação para a oferta destinada à Missão entre Indígenas da IECLB. Uma parábola:

Dois irmãos moravam como vizinhos. Suas terras eram divididas por um rio. Nos últimos tempos, um desentendimento sobre as divisas que já vinha de longe começou a se avolumar. Brigaram tão feio que não quiseram mais se ver, que dirá, se falar.

Certo dia chegou um carpinteiro, pedindo trabalho. Vinha com suas ferramentas e a sua vontade. Só lhe faltava uma tarefa. O irmão resolveu dar uma utilidade ao monte de madeira que estava empilhada no pátio. Pediu ao carpinteiro que construísse uma cerca bem alta na beira do rio, para que não precisasse mais ver nenhum sinal do irmão. Então, viajou.

Depois de algumas semanas retornou. Ficou muito incomodado com o que encontrou. Em lugar de uma cerca, o carpinteiro tinha construído uma ponte.

Enquanto xingava o carpinteiro por essa alteração da ordem, viu o seu irmão vindo pela ponte, de braços erguidos, pedindo perdão. Ele não se agüentou e foi ao encontro do irmão, fazer as pazes.

Quando se deram conta, o carpinteiro já ia longe. Chamaram-no de volta. Queriam comemorar e festejar a reconciliação. Mas, o carpinteiro pediu licença de continuar o seu caminho. “Ainda tenho muitas pontes a construir”.
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